O bebê é uma pessoa.
Não é nenhuma novidade que o bebê é um ser pequeno e imaturo e, por isso, totalmente dependente de seu ambiente.
Ao contrário do que possa parecer, tal dependência pode gerar ansiedade no bebê e em quem cuida dele.
Para que o bebê se desenvolva, é preciso que aquele que se dedica aos seus cuidados possa compreender o que ele mostra através de seu corpo — os seus desejos e suas necessidades, além das manifestações emocionais, a sensação de bem estar e a angústia que o assola são enormes, são catastróficas e raramente são reconhecidas.
O bebê informa quem ele é para quem o acolhe. O seu corpo torna-se o lugar da linguagem: os choros, gritos, movimentos da boca, das mãos ou do corpo em direção a outra pessoa são as primeiras manifestações de um ser que tem recursos próprios.
Na maioria das vezes é a mãe que se ocupa desta função e se questiona, perguntando ao bebê sobre o que ele quer. E ele responde com gestos, faz “uma carinha” de que algo o está incomodando, balbucia reclamando e chora também para dizer que precisa de ajuda. É desse modo que o bebê comunica que precisa de colo, se está sentindo frio ou calor, se está com sono, fome ou sede. Paradoxalmente, o bebê só poderá tomar sua vida nas próprias mãos, com certa autonomia, graças ao apoio do outro, que irá interpretar sua comunicação.
A mãe vai apresentando o mundo ao bebê e ele vai se organizando aos poucos, com seu corpo e suas sensações. Nesse momento, a mãe atende ao incômodo do bebê, proporcionando um cuidado ao pedido dele. O bebê, ao experimentar ser compreendido e bem atendido em suas necessidades, retorna essa sintonia, essa vivência de confiança e satisfação, agradecendo através de seu sorriso, de seu balbucio e em seu olhar mais relaxado e alegre. No entanto, nem sempre a sintonia é alcançada, devido a diversos fatores que podem interferir na compreensão da comunicação do bebê por parte da mãe.
A mente do bebê é formada através das sensações do corpo, do movimento. Por exemplo: ele mama não apenas para ter sua fome saciada, mas porque descobre o prazer de mamar, à medida que satisfaz sua fome e sua necessidade de calor, de acolhimento da mãe. É isso que o faz chupar o dedo, mesmo que não saia alimento nenhum — esse ato lhe dá um enorme prazer, alívio e aconchego.
De cada coisa que o bebê faz, a mãe supõe a intenção e o desejo que consegue compreender naquele momento com seu filho, e ele se sente correspondido e satisfeito. A mãe põe palavras no funcionamento e nas experiências corporais dele: quando pergunta se sente frio, ela fala pra ele de uma temperatura. Durante a amamentação, ele é alimentado, nutrido com leite, palavras e afetos, e o bebê tem a possibilidade de sentir-se acolhido em seu pedido.
Quando um bebê chora é por algo, e quem está para atendê-lo descobre, junto, o que está sendo pedido pelo bebê e sentido pela dupla. Eles trocam sons, expressões faciais ou gestos. No olhar da mãe para o bebê, ela intui a necessidade e ele se integra na fala e no gesto dela. Tudo isso num estado de desconforto ou relaxamento dos dois. Assim, inicia-se uma construção de confiança, da constância dos cuidados e a empatia que ela oferece.
Todas as vivências do bebê são colocadas em conjunto, em um percurso de ida e volta entre ele e a mãe. Ela o ajuda a se reconhecer e ele pode internalizar a noção de ser um indivíduo que possui condições de compreender o que acontece consigo. Por exemplo: “o que estou sentindo é uma dor de barriga”. Através do que a mãe lhe diz, o bebê aprende a nomear as experiências que ele está vivendo.
É justamente essa experiência, de ser, que está na base da formação de seu desenvolvimento e é a condição para a constituição de uma identidade pessoal.
“É SOMENTE PELA CONTINUIDADE DA EXISTÊNCIA QUE O SENTIMENTO DE SI, DO REAL, E O SENTIMENTO DE SER PODEM FINALMENTE SE ESTABELECER ENQUANTO TRAÇO DA PERSONALIDADE INDIVIDUAL.”
(Winnicott,19771 f,p24).
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